Menos Dor, Mais Performance: O Poder da Constância na Evolução do Atleta
Quem já ficou um período sem treinar e depois voltou às pistas sabe: o corpo é colocado à prova. É nesse momento que muitos corredores enfrentam dores musculares intensas, fadiga precoce e queda de rendimento. Mas por que isso acontece mais em alguns atletas do que em outros? A resposta está, muitas vezes, na falta de constância nos treinos e na consequente perda de um fenômeno fisiológico chamado efeito protetor da carga repetitiva.
O que é o efeito protetor da carga repetitiva?
Sempre que expomos músculos, tendões e ossos a uma carga mecânica, como correr, saltar ou treinar força, o corpo sofre pequenas microlesões. Isso pode gerar dor e fadiga, principalmente quando o estímulo é novo ou mais intenso. Porém, ao repetir essa carga de forma consistente, o organismo se adapta:
• reorganiza fibras musculares
• fortalece tendões e ossos
• melhora a coordenação neuromuscular
Esse processo cria uma espécie de memória protetora, que reduz os danos e a dor em treinos ou provas subsequentes. Na literatura científica, esse fenômeno é conhecido como Repeated Bout Effect.
Por que a constância é fundamental?
O efeito protetor não é permanente. Estudos indicam que, após apenas uma ou duas semanas sem treinar, parte dessa proteção já se perde. Em outras palavras: se você mantém uma rotina regular de treinos, seus músculos estão preparados para suportar melhor os impactos de uma prova desafiadora. Mas se interrompe os treinos por tempo prolongado, essa defesa natural diminui e o corpo volta a sentir como se fosse a primeira vez.
Na prática, isso significa que a constância é a chave:
• mantém o corpo adaptado à carga
• reduz a intensidade da dor muscular
• aumenta a tolerância ao esforço prolongado
O erro do descanso exagerado
O polimento, ou taper, nas semanas que antecedem uma prova é essencial. Mas existe um limite: reduzir o volume em torno de 40 a 60% já é suficiente para promover recuperação sem perder adaptações.
Quando o atleta corta o treino de forma radical, correndo pouquíssimo ou nada na semana anterior, chega descansado, mas descondicionado em nível celular. O resultado é dor mais precoce, músculos menos resistentes e desempenho comprometido.
Exemplo prático
Na Maratona de Floripa 2025, precisei reduzir drasticamente o volume por conta de um incômodo no joelho. Fiquei uma semana sem correr, apenas com treinos de bike e fortalecimento, e na semana da prova fiz apenas dois treinos leves de 5 km.
Na maratona, senti a PSE mais elevada, frequência cardíaca mais alta e fadiga muscular muito intensa a partir do km 32. Concluí a prova cerca de 10 minutos acima do planejado e, logo após cruzar a linha de chegada, a dor muscular era bem mais forte que o habitual, permanecendo acentuada no dia seguinte. Em outras maratonas, quando mantive os treinos de forma consistente, a fadiga foi menor durante a prova e a recuperação pós-competição muito mais rápida.
Constância: correr com mais eficiência e menos dor
Treinar de forma consistente não é apenas uma questão de performance, mas também de saúde. A constância mantém ativo o efeito protetor da carga repetitiva, permitindo que o corredor evolua sem precisar recomeçar do zero a cada ciclo de treinos ou prova.
Constância não é apenas disciplina, é ciência aplicada ao rendimento e à prevenção de dores.